Correlação não implica causalidade

Se você já olhou o meu Instagram, @selfmasterybr, deve ter reparado no meu vício em Nutrição, eu adoro ver as últimas pesquisas na área e tento desvendar o que é verdade, o que é mito, principalmente daquilo que aparece nos jornais e revistas não especializados e que são repetidos ad nauseam. Porém, não é tarefa fácil tentar simplificar essas pesquisas, sem cair nas mesmas armadilhas que jornalistas não especializados cometem.

Hoje queria falar de algo bastante comum, que todo mundo que já estudou estatística sabe: correlação não implica causalidade, ou para os fãs de latim “cum hoc ergo propter hoc” (“com isto, logo por causa disto”)

O que isso quer dizer?

A frase “correlação não implica causalidade” refere-se à incapacidade de deduzir logicamente uma relação de causa e efeito entre dois eventos ou variáveis ​​apenas com base em uma associação observada ou correlação entre eles. Isto é, só porque dois eventos ocorrem ao mesmo tempo, isso que não quer dizer que um causou o outro.

A falácia da correlação no campo da Nutrição

Em nutrição, é um erro bastante comum, não necessariamente nas pesquisas, mas em como elas são divulgadas em revistas/jornais e na internet sem uma análise correta. Um exemplo bobo do dia a dia: se alguém começou a fazer uma dieta que elimina algum alimento ou grupo de alimentos (glúten, carboidrato, gordura, carne…) e seus marcadores de saúde melhoraram, então logo tal alimento que ela deixou de comer faz mal pra saúde.

O problema dessa conclusão é a seguinte, essa foi a única variante que mudou? Provavelmente, se a pessoa está de dieta, ela também:

  • Começou um regime de exercícios.
  • Restringiu calorias.
  • Emagreceu.
  • Está se alimentando melhor no geral.
  • Diminui o consumo de produtos industrializados.

Um exemplo, anedótico e surpreendente é do Professor Mark Haub que fez uma dieta basicamente de Twinkies.  Ele diminui a ingestão calórica de 2.600 para 1.800 calorias diárias e emagreceu 12 quilos. Nada de especial até aí; se você consome menos calorias que gasta, você emagrece! Matemática simples e bastante conhecida. A parte surpreendente foi que o colesterol ruim (LDL) dele diminuiu, o colesterol bom (HDL) aumentou e os níveis de triglicerídeos diminuíram 39%!

Ou seja, depois de uma dieta que consistia basicamente de chocolate, Doritos, Oreo e cereais adocicados, a saúde cardiovascular dele, pelo menos no quesito marcadores sanguíneos, melhorou. Então, podemos concluir que: uma dieta de chocolates é saudável!? Não!

O simples fato dele ter emagrecido fez com que a saúde dele melhorasse no geral. Os níveis de gordura no sangue dele melhoraram, provavelmente, porque os níveis de gordura corporal e principalmente visceral dele diminuíram.

Algumas hipóteses para a melhora de saúde dele:

  • Se ele está com menos gordura no fígado, os níveis de inflamação dele diminuíram e o fígado consegue realizar seu trabalho melhor.
  • O coração já não está tão sobrecarregado, com as artérias com menos gordura, a circulação melhora, a pressão sanguínea diminui.
  • Ele também ingeriu shakes proteicos e multivitamínicos. Logo, mesmo com uma dieta pobre, ele tinha uma fonte de nutrientes e de proteína.
  • Outros fatores podem ter ajudado a melhorar a saúde, talvez, inconscientemente, ele tenha aumentado o nível de atividade física, caminhado mais, etc. Talvez, tenha dormido mais ou diminuído o estresse, já que não estava “perdendo” tempo preparando diversas refeições diárias.

Exemplos de de correlação estranhos/engraçados!

Gastos dos EUA em ciência, espaço e tecnologia e suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocamento tem uma correlação de 99.79%.

Número de pessoas que se afogaram por cair em uma piscina e filmes nos quais Nicolas Cage apareceu, correlação de 66,6%.

Taxa de divórcio no Maine e o consumo per capita de margarina tem uma impressionante correlação de 99,26%.

Idade da Miss America e assassinatos por vapor, vapores e objetos quentes tem uma correlação de 87%!

Taxa de afogamentos depois de caírem de barcos de pescas e taxa de casamento em Kentucky tem uma correlação de 95,24%.

Fonte: http://www.tylervigen.com/

Então, correlação está sempre errada?

Não! Onde há causalidade, há correlação, mas não só isso. Junto com a correlação, provavelmente há uma sequência no tempo da causa para efeito e no campo da nutrição e saúde, principalmente, causas comuns e intermediárias. Ou seja, a correlação ela é necessária para inferir a causa, porém ela não é suficiente.

Um exemplo famoso foi a correlação entre o aumento na venda de sorvetes e o aumento da taxa de assassinatos. A relação entre esses dados não é causal, porém também não é apenas coincidência, como nos casos anteriores. O aumento de ambas as taxas tem algo em comum: o aumento do calor. Com o aumento do calor, há mais consumo de sorvete e em temperaturas mais altas, as pessoas saem mais de casa, se as pessoas saem mais de casa, elas têm maiores chances de serem assassinadas, seja por um briga no bar ou de trânsito, seja porque há mais predadores e mais vítimas nas ruas.

Como analisar informações?

A principal dica para não cair no erro correlação é causa é considerar os fatores subjacentes/ocultos antes da conclusão. Não há nada de errado em parar para pensar e analisar os dados. O que há além do aumento de vendas de sorvete que podem estar causando o aumento na taxa de homicídios? Será que a venda de bebidas também aumentou no mesmo período? Além do aumento de homicídios e vendas de sorvete, o que aconteceu no mesmo período?

Verifique a temporalidade nos dados. Se a causa nem sempre precede o efeito, a relação é uma relação de feedback ou não é causal. Além disso, se a causa e o efeito não forem medidos simultaneamente, a temporalidade do estudo pode estar prejudicada.

Outra dica para analisar estudos é verificar se eles foram replicados com sucesso e se há uma meta-análise dos estudos.

E lembre-se, às vezes, é só uma coincidência!